22 April, 2007

aterosclerose e doença carotídea oclusiva

a pedido do meu amigo António Boronha ( como recusar António?) já volto para dar algumas explicações sobre Aterosclerose e obstrução das carótidas, o diagnóstico atribuído a Eusébio.
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. A aterosclerose, e aproveitando o link que lá deixaste e onde se define bem, significa, ou acontece, quando se começam a formar no interior das artérias, placas constituidas por gordura fixada por processos quimicos que envolvem outras células sanguineas. Como resultado da formação destas placas, o revestimento interno das artérias torna-se mais espesso e irregular, contribuindo progressivamente para a diminuição do fluxo sanguineo e menor irrigação dos orgãos a jusante.
Este processo de formação de placas de ateroma inicia-se cedo, por volta dos 20 anos, e progride mais ou menos conforme existam ou não outros factores de risco, tais como: a hipertensão arterial, os altos valores de colesterol, o tabagismo, a diabetes, a obesidade, a falta de exercício, a idade, a história familiar de acidentes vasculares em idade jovem, e o facto de ser homem. Os homens têm um maior risco de sofrer desta doença do que as mulheres, embora depois da menopausa o risco aumente nas mulheres até finalmente se igualar.
A aterosclerose afecta praticamente todas as artérias do corpo, mas assume maior gravidade no cérebro, no coração, nos rins e nos membros. Quando a aterosclerose se desenvolve nas artérias que alimentam o cérebro (artérias carótidas), pode produzir-se um acidente agudo por deslocação de parte dessas placas(que se partem e formam êmbolos), que percorrem a corrente sanguínea até ao cérebro; na altura em que o chamado êmbolo "encrava" numa determinada artéria dentro do cérebro, essa área deixa obviamente de ter fluxo cerebral suficiente à sua função normal (isquémia) e este facto traduz-se num déficit neurológico correspondente a essa área, a chamada embolia cerebral ou acidente vascular cerebral agudo isquémico (AVC isquémico)embólico.
O AVC isquémico, pode resultar não só da deslocação de uma placa de ateroma das carótidas, mas também por obstrução local ab initio, processo que vai aumentando até o sangue deixar completamente de circular; a este fenómeno chama-se vulgarmente trombose, ou AVC isquémico (trombótico) e mas as consequências neurológicas são exactamente as mesmas.
As diferenças em termos de terapêutica...
Quando são detectadas placas de ateroma nas carótidas, segundo o grau de obstrução ou redução do lumen arterial, pode ter ou não indicação operatória. E não se operam sempre porque é uma cirurgia que embora tecnicamente não seja dificil, tem riscos significativos de ser o próprio procedimento a desencadear uma rotura da placa(sem que se consiga evitar) e a entrada em circulação de um êmbolo, com as consequencias conhecidas. Além de outras complicações. Isto faz com que, se tenham estabelecido normas que na prática significam que só se opera quando a obstrução reduz muito significativamente a circulação, porque aí, de uma ou outra maneira, o AVC será inevitável.
A endarterectomia(remoção da placa) de carótidacom estenose(aperto) sintomática maior de 70% do diâmetro interno está bem estabelecida, tendo evidência clínica que reduz em 17% o risco de acidente vascular cerebral em relação ao tratamento clínico. Porém, a equipe cirúrgica não poderá ter mais de 5% de complicações globais. Com estenose entre 50 e 69% do diâmetro interno, só poderá ser indicada em doentes selecionados, pois reduz pouco o risco de acidente vascular cerebral em relação ao tratamento clínico, e somente onde as condições hospitalares e profissionais sejam excepcionais. E mais, a equipe cirúrgica não poderá ter mais de 2% de complicações globais.
Estas normas mostram bem a necessidade de ponderaçao em relação à cirurgia.
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Em relação à aterosclerose cerebral como causa de AVC, nao há qualquer indicação cirurgica, o tratamento é médico.
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Não queria acabar sem referir, a outra grande e grave consequência da aterosclerose: quando se desenvolve nas artérias que alimentam o coração (artérias coronárias), em que a consequência tão bem conhecida é o enfarte agudo do miocárdio, outra forma de acidente vascular isquémico agudo. Mas este terá ficar para outra ocasião.

Contra Capa

3 comments:

maloud said...

A aterosclerose também pode provocar uma espécie de "imbecilidade" senil? Pergunto, porque muitas vezes o vocábulo é associado a casos destes que não têm o diagnóstico de Alzheimer. Quero agradecer as anteriores respostas bem como a próxima que de certeza virá.
Beijinho

Cristina said...

Maloud

tanto a aterosclerose como o Alzheimer cursam com estados de demencia.
normalmente o segundo tem evolução mais rápida e mais incapacitante.
mas será melhor consultar um neurologista :)
beijinho

Confúcio Costa said...

Estou mais esclarecido. E eu que tinha prometido a mim mesmo não aprender nada hoje.

Abraço.